O que 10 anos me trouxe de lições de carreira no jornalismo

As lições de carreira no jornalismo que acumulei nos últimos dez anos não vieram de livros. Vieram de conversas, mentorias, diagnósticos e acompanhamentos com estudantes e profissionais da área. Entrei nesse mercado ainda no segundo ano da graduação, não por um plano calculado, mas como resposta a algo que me incomodava profundamente: jornalistas com potencial real, sem direção nenhuma sobre o que fazer com ele.

Dez anos depois, esse incômodo continua sendo o motor do meu trabalho. Algumas dessas licoes de carreira no jornalismo confirmaram o que eu já suspeitava. Outras me surpreenderam, e me fizeram revisar coisas que eu acreditava com convicção.

É sobre essas lições que quero falar aqui.

Lição 1: a dor de entrada quase nunca é o problema real, e essa é uma das lições de carreira no jornalismo mais importantes

A primeira grande lição, e talvez a mais importante, é que o problema declarado raramente é o problema de fato.

Quando alguém chega dizendo “não consigo emprego”, quase nunca o bloqueio é ausência de oportunidades. Da mesma forma, quando dizem “preciso melhorar meu currículo”, o currículo quase nunca é o que está travando. E quando dizem “não sei o que fazer”, a falta de informação raramente é a questão central.

O que está por trás, na maioria das vezes, é uma combinação de ausência de posicionamento, falta de clareza sobre o que o mercado enxerga naquele profissional e, em muitos casos, uma relação não resolvida com a própria trajetória, uma dificuldade de reconhecer o valor do que já foi construído.

Aprender a ouvir o que não está sendo dito é o que torna o trabalho de direcionamento de carreira algo diferente de uma consultoria de currículo. E foi essa escuta que me ensinou mais do que qualquer metodologia.

Lição 2: talento é comum, direcionamento é raro.

Em dez anos, não encontrei nenhum jornalista sem talento. Nenhum. Encontrei profissionais em fases diferentes, com lacunas técnicas distintas e com histórias muito variadas, mas sem talento, nenhum.

O que realmente escasseia é direcionamento. Ou seja, a clareza sobre para onde ir, por que ir e como comunicar isso ao mercado de forma que gere resultado concreto.

Esse desequilíbrio entre talento abundante e direcionamento escasso explica por que o mercado de jornalismo tem tantos profissionais competentes ganhando menos do que deveriam, ocupando posições que não os desafiam e carregando a sensação persistente de estar abaixo do próprio potencial. Não é falta de esforço. É falta de direção para o esforço.

Lição 3: investir na própria carreira ainda é tabu

Uma das situações que mais me surpreendeu ao longo desses anos foi a resistência de jornalistas, especialmente os mais experientes, a investir na própria carreira de forma deliberada.

Existe uma crença muito arraigada de que desenvolvimento profissional acontece naturalmente com o tempo, ou que é responsabilidade do empregador. Além disso, muitos acreditam que buscar orientação é sinal de fraqueza, ou que pagar por capacitação é um luxo reservado a quem tem muito dinheiro ou muito tempo disponível.

O resultado dessa crença é visível: profissionais que trabalham muito, entregam bem, mas ficam anos, às vezes décadas, na mesma faixa de remuneração e relevância, sem conseguir identificar o que trava o avanço. Em contrapartida, os jornalistas que mais cresceram entre os que acompanhei têm algo em comum: decidiram tratar a própria carreira como um projeto que merece atenção intencional. Não de forma obsessiva, mas consistente. E essa decisão mudou a trajetória deles de forma concreta.

Lição 4: o mercado não é injusto, e essa é uma das lições de carreira no jornalismo que mais surpreende

Essa lição revisou uma crença que eu tinha no início da minha trajetória: o mercado de jornalismo não é fundamentalmente injusto. Ele é opaco.

A diferença importa. Injustiça implica algo estruturalmente errado que o indivíduo não pode mudar. Opacidade, por sua vez, significa que as regras existem, mas ninguém as explicita, e quem as descobre e opera dentro delas leva vantagem sobre quem não as conhece.

As regras não escritas do mercado de jornalismo, como se constroem oportunidades, como se negocia remuneração, como se constrói reputação profissional, o que as redações e clientes realmente valorizam, não aparecem na grade curricular da faculdade. Tampouco os primeiros empregos costumam ensiná-las. Consequentemente, quem não tem acesso a essas informações toma decisões com base em suposições que muitas vezes estão erradas.

Parte do que faço há dez anos é tornar essas regras visíveis. E toda vez que isso acontece numa mentoria ou numa consultoria, a reação é sempre a mesma: “por que ninguém me disse isso antes?”

O que essas licoes de carreira no jornalismo mudaram em mim

Comecei esse trabalho com a convicção de que o problema dos jornalistas era principalmente técnico. Acreditava que, ensinando as habilidades certas, as carreiras se resolveriam. Fui perdendo essa convicção ao longo do tempo, não porque técnica não importe, mas porque percebi que ela raramente representa o gargalo.

O gargalo, na maioria das vezes, é interno: a forma como o profissional se enxerga, o que acredita merecer e a disposição — ou não — de se mover em direção ao que quer. Técnica sem essa base não sustenta avanço real. Por isso, hoje trabalho de forma diferente. E enxergo de forma diferente o que significa, de fato, ajudar alguém a construir uma carreira.

Dez anos depois, o incômodo que me trouxe até aqui continua presente. Hoje, porém, tenho mais clareza sobre o que fazer com ele.

Se você se identificou com alguma dessas lições e quer entender em qual ponto da sua carreira está travado, o canal da Academia do Jornalista no YouTube traz essa análise toda semana. Inscreva-se e acompanhe.

Até a próxima pauta.

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